CONTOS




BALTAZAR BIZARRO
(01/01/1984)

Querido Diário:

Desculpe ter ficado três meses sem lhe contar nada, mas você entenderá a causa e sei que me dará razão.

Há três meses comecei a notar um colega de classe, Baltazar Bizarro, quando fomos fazer um trabalho de grupo sobre telecomunicações, na casa dele.

B.B., como posteriormente passei a alcunhá-lo, parecia fadado ao ridículo desde o nome. Seu ar perdido e desajeitado, seu desleixo, tudo contribuía para que mais e mais se tornasse o alvo de chacotas estudantis.

B.B. tinha um quê de incomum, como eu mesma.

Como sempre fui a mais bonita da classe, despertei invejas e inimizades conseqüentes, duramente aprendendo a passar por burra para ser aceita pelo menos pelos rapazes, que, querendo se sentir superiores às moças, nunca sairiam com uma mais inteligente do que eles. B.B., evidentemente, não tinha esta preocupação! Sua aparência deplorável e suas notas baixas destacavam-no como mau exemplo sempre citado, anti-social sempre subestimado por colegas e professores.

Naquele trabalho sobre telecomunicações, ele calhou no meu grupo, e insistiu que todos nos reuníssemos na sua casa, alegando que de lá nunca tiraria seus preciosos livros; e afirmava ter bastante material de pesquisa.

No dia da reunião, surpreendeu-nos a quantidade de livros da sua estante particular na mansão, a mim surpreendeu mais o tipo de assuntos que ali me despertaram saudável curiosidade bem feminina.

B.B. tinha grossos tomos carcomidos de Theologia, Metaphysica, Mithologia e Psychologia, contrastando com modernas obras técnicas de Computação, Matemática, Cibernética, Informática e Telecomunicações. Na mesma biblioteca, havia um computador doméstico, e, ao lado deste, na mesma mesa, vi um maço de manuscritos de B.B. intitulado ''Ensaio do paradoxo entre lógica aristotélica e lógico simbólico-matemática na dicotomia de horizontes na ontologia hermenêutica e pragmática das linguagens de computação BASIC, COBOL e outras''.

Quando respondeu aos comentários dos colegas de grupo sobre a estante, o baixo e tímido B.B. perdeu a gagueira, e seu tom habitual de murmúrio rouco transfigurou-se em orador, dominando majestosamente a sala ao delirar sobre seus projetos para o trabalho, o qual pretendia que fosse um tipo de tese gigantesca, sem cabimento para o que foi pedido pelo professor!

Gesticulava poderoso com um brilho assustador, hipnótico nos olhos, revelando um carisma tal, sempre despercebido. Era tão seguro e exaltado que assustou a todos, e acabou, voto vencido de B.B., sendo só um trabalhinho de estudantes.

Daquele dia em diante passei a conversar mais com B.B., sentei com ele na classe, ganhei aos poucos sua confiança, tornei-me sua confidente e entendi sua história e seu sonho.

A mãe de B.B. era uma grã-fina da alta sociedade, passava metade do ano na Europa ou América, nunca estava em casa. O seu pai, que lhe deu o nome de um bisavô, era alto executivo de uma corporação multinacional que só pensava no seu trabalho; B.B. nunca tivera atenção ou carinho em casa, tornando-se introvertido e triste...

B.B. transitava livremente pela mansão vazia, e enganava seu ócio e gastava sua polpuda mesada em passatempos incomuns: peças de eletrônica, computadores, cursos por correspondência e livros, livros místicos de sebos e livros técnicos atualizadíssimos, nos cinco idiomas que a família o obrigara a estudar na meninice.

Meu B.B. se diferenciava de jovens místicos esotéricos e de fanáticos por computadores e videogames ou fliperamas por ter algo que eles não tinham: uma FILOSOFIA a guiá-lo!

Baltazar praticava meditação transcendental, falava de transferência de almas, possessão demoníaca, força de vontade, auto-hipnose e sugestão, e tinha uma idéia fixa, uma obsessão mesmo, de ser imortal e ter todo o tempo do mundo para realizar seus projetos. E, em contraste com isto, este misticismo apaixonado, cultivava o rigor e a disciplina de um método lógico de pensamento, frio, racional e ataráxico. Falava-me de um tal Wiener e Cibernética, Von Neumann e jogos matemáticos, método Warnier, máquinas de Turing e outras loucuras que eu mal entendia.

Não era de se admirar que não tivesse tempo para os estudos curriculares!

Eu não entendia esta natureza dividida de B.B., até aquele dia em que ele faltou à aula e fui à sua mansão, onde a empregada me informou friamente que meu B.B. fora encontrado morto em seu quarto, aparentemente sem causa e com o computador ligado ao terminal telefônico.

Chorei desesperada por dias, meu mundo ruíra...

Semanas depois, soube que os computadores da multinacional onde trabalha o pai de Baltazar estavam com problemas técnicos!

Estavam com eficiência dobrada, tomando decisões e criando analogias heurísticas, originais, e dando respostas com certo humor, e ninguém conseguia apagar ou furar os bloqueios desta nova auto-programação aparente.

B.B. sempre dizia que um programa tem não só a lógica do programador, como tem parte de sua alma. Não sei se acredito em reencarnação, ou se as teorias de B.B. estavam certas; se programou via telefone os computadores ou se sua alma vive agora neles; só sei, querido Diário, com toda ''intuição'' feminina que há: o dígito de B.B. naqueles computadores, e o que quer que seja, programa ou alma, será para sempre...

Eterno ou imortal...





Ilustração feita por Renê Dalton
Ilustração feita por Renê Dalton
Ilustração feita por Renê Dalton
Ilustração feita por Renê Dalton