GIBITECAS, BÉDETECAS E GIBITERIAS






Como gosto muito de imagens, seja as Artes Plásticas (Pintura, Escultura, Arquitetura, Fotografia, etc.), de Teatro, Cinema, Vídeo, DVD e Histórias em Quadrinhos; então, sempre que tenho um tempinho livre entre os congressos de pesquisadores nos quais apresento minhas pesquisas sobre tecnologias de ponta subliminares, dou uma escapada e visito Museus, Teatros, Bibliotecas, Discotecas, etc. (sem esquecer a gastronomia dos vinhos e restaurantes com pratos típicos).

Nestas visitas, sempre chamou-me a atenção a quantidade de bibliotecas especializadas em Histórias em Quadrinhos espalhadas pelo mundo, e também as dimensões das livrarias, o que indica a existência de um enorme mercado consumidor de imagens.

Em PORTUGAL, Lisboa, perto do Shopping Center Olivais, existe o “Palácio do Contador Mor“, um edifício de grande valor histórico que foi transformado em uma biblioteca especializada em Histórias em Quadrinhos (HQ), que em Portugal são chamadas “Banda Desenhada” (BD), a BEDETECA de LISBOA.

A Bedeteca é um espaço cultural dedicado às HQs, há álbuns de capa dura de todos os gêneros: Infantil, Didático, Para-Didático, Aventura, Terror, Erótico, Histórico, Adaptação Literária, etc...tudo muito bem organizado e dividido por salas e por andares, constando também coleções completas de revistas, livros de pesquisa sobre HQ, Videoteca com documentários e filmes relacionados à HQ, hemeroteca com recortes de jornal, salas com computadores (ordenadores) para CDROMs de e sobre HQ, Videogames educativos e de entretenimento e também acesso gratuito ilimitado à Internet com todos os Websites de HQ marcados no arquivo Favoritos, Fonoteca com fones de ouvido individuais, salas de debates de grupo com isolamento acústico, Fanzinoteca com acervo de Fanzines e revistas alternativas-underground (doei uma coleção da BARATA que edito desde 1979), livraria (filial da BDMANIA vendendo revistas e produtos derivados de HQ), Bar e Lanchonete no alto de uma das torres, auditório para palestras com equipamento multimídia (telão, Datashow, etc) e diversas salas ocupadas com atividades, oficinas-workshops, cursos, palestras e exposições, etc...

A Bedeteca é dirigida por uma Doutora e tem duas assessoras pedagógicas, sendo o diretor de eventos o famoso João Paulo Cotrim, apresentador do programa de televisão de mais alta audiência entre os jovens.

Em Portugal a BD-HQ é levada com grandes investimentos, o material histórico é detalhista em sua pesquisa e os álbuns são classificados por um sistema meio empírico, à parte do Código Decimal Dewey (CDD) e do Código Decimal Universal (CDU), um sistema de biblioteconomia prático desenvolvido também nas Gibitecas brasileiras: Gibiteca de Curitiba, Gibiteca Henfil-Paraíba, Gibiteca Henfil-São Paulo, e outras, comprovando que o CDD e CDU são realmente deficientes e lacunosos no que tange aos Quadrinhos.

Já no centro de Lisboa há diversas livrarias especializadas em HQ-BD, diversos sebos-antiquários de revistas muito antigas, usadas de segunda-mão (chamados Alfarrabistas) sendo o mais especializado em BD o nas ladeiras da “Calçada do Duque”, onde há raridades esgotadas (até na popular “Feira da Ladra” que ocorre desde a Idade Média toda terça-feira encontrei toalhas no chão expondo revistas e álbuns de BD-HQ) .

Porém, a maior livraria, com várias filiais, é a BEDEMANIA , com impressionante acervo de centenas de álbuns e revistas, posters, bonecos tridimensionais, cards-figurinhas e todos os subprodutos derivados dos quadrinhos.

Entrevistei os donos, sócios-proprietários Pedro Silva e Paulo Costa, que descreveram um mercado consumidor americanizado, no qual, surpreendentemente, os álbuns em Espanhol e em Francês tem pouca saída-consumidos apenas por adultos acima de 30 anos, sendo que os adolescentes e crianças consomem apenas os COMICS dos USA, devido a obrigatoriedade do inglês nas escolas, aos filmes de Hollywood, Música e toda a Indústria Cultural do Imperialismo Hegemônico (hoje eufemisticamente denominado “Globalização” como metáfora para Americanização), e com a retirada dos idiomas Francês e Espanhol das escolas, Portugal ficou ilhado culturalmente, tendo como única opção os USA, e o Mangá (Histórias em Quadrinhos do Japão) quando muito, que vem publicadas e traduzidas por meio das editoras e distribuidoras norte-americanas. (reparei que invariavelmente os proprietários de quaisquer livrarias por todos os países, sem exceção, parecem sempre desviar o assunto evitando abordar cifras de volumes de vendas e omito quaisquer dados quantitativos, do mesmo modo que fazem os livreiros dos pontos de venda brasileiros, igual ao que fazem também as editoras no Brasil, metodicamente sonegando quaisquer dados quantitativos de tiragem e circulação, sejam extra-oficiais ou oficiosos, dificultando ao pesquisador para propor um diagnóstico mensurando o mercado consumidor, talvez todos vejam estas informações como segredo de comércio ou confidencial dos planejamentos de Marketing... ou, quiçá, alguns poderiam desejar ocultar dados talvez por mera e simples sonegação de impostos e caixa dois... esta hipótese está mais de acordo com o “modus operanti” desonesto de certos editores que conheci pessoalmente e que ainda atuam no mercado brasileiro paulistano, oscilando entre perversidade brutal, ignorância crassa e grosseria chula, os mais espertos ocultam suas atividades sob algum “testa-de-ferro” seja um inocente sendo usado ou um profissional em dar cobertura).

Um triste quadro para um mercado consumidor europeu lusófono que antes produzia álbuns como “Wanya-escala em Orongo” com uma signagem-linguagem de vanguarda no estilo de uma “Saga de Xam” francesa, de um “Eternus 9” na linha de um Druillet, obras questionadoras, experimentais, de conteúdo, autorais, de arte... hoje o único referencial para os novos autores é o estilo americano e o mangá assimilado no viés americanizador, condicionando toda uma sensibilidade e repertório visual para o ritmo e traço, diagramação e roteiro infantilizado e maniqueísta dos super-heróis com seus bandidos e mocinhos, nivelando por baixo o que há de mais comercial e vendável para as massas, ignorando segmentação e nichos como os consumidores de material culturalmente mais rico.

Salva-se um conjunto de BDs publicas em jornal, satirizando filósofos desde os Sofistas (o Sofista Prateado) até Deleuze, do Existencialismo à Hermenêutica, em BD de página inteira colorida, “Filosofia de Ponta”, chegando a ser objeto de exposição e recolha-coletânea em álbum, um material de humor adulto , questionador, filosófico da mais alta qualidade de autoria de Júlio Pinto e Nuno Saraiva.

Como sempre, a imprensa alternativa e os Fanzines portugueses também apresentam obras pessoais, autorais, como a poesia filosófica de Gil Nuno Vaz. O mesmo fenômeno acontece no Brasil, a imprensa alternativa dos Fanzines underground é que abriga os poucos e raros produtores de material autoral, de arte.

Na ESPANHA visitei outra livraria enorme, em Barcelona-Catalunya, 23 de abril de 1996, dia de São Jodi (São Jorge e o Dragão) quando o namorado oferece uma flor à amada, e esta retribui com um livro, tradicional festa medieval, dia no qual todas as livrarias apresentam descontos de 20% além de brindes gratuitos (marcadores de livros, catálogos, etc).

Depois do bairro medieval, bem detrás da Catedral antiga, fica a famosa livraria de quadrinhos “CONTINUARÁ”, no térreo tendo os álbuns escritos em Catalão, material histórico, Fanzines e edições independentes- desde álbuns capa dura até revistas mensais ligadas ao movimento cultural de resistência e sobrevivência do idioma Catalão (O mesmo acontece na Galícia com o idioma Português, havendo em Santiago de Compostela revistas e jornais, até grafites nos muros, defendendo a língua contra o Castelhano que se impõe como idioma oficial), Continuará tem uma escadaria com subsolo-porão no qual há várias prateleiras de mangá e comics USA, e entrevistei os proprietários Albert Mestres e Enric Piñero, que, melancólicos, tristemente mostraram os álbuns de “Mortadello y Filemón” que não tem tido re-edições dos volumes antigos devido às baixas vendas, fazendo um negro e pessimista prognóstico de extinção da Historieta (HQ) de produção local, afogada pela avalanche de mangá vindo via agências distribuidoras e editoras dos USA, cuja metodologia de entrada no mercado catalão descrita por ambos consistiu em etapas, implicando em desenhos animados de televisão (Animé) seguidos de Video-games, bonequinhos, cards, lancheiras, e todo o merchandising possível e imaginável, para então atacar com baratas revistas de banca e depois álbuns de quadrinhos, tudo tanto publicado em castelhano quanto em catalão.

Para ambos, embora também aparentam furtar-se a oferecer números que senti terem, o Mangá superou em muito as vendas até mesmo dos super-heróis americanos em toda Catalunya, Barcelona teria o leitor adulto mais exigente e de maior poder aquisitivo, interessado em material autoral, este estaria evadindo-se para os álbuns importados em francês, Italiano e Espanhol-Castelhano, o que impede a publicação em catalão devido a baixa vendagem, sobrando um sólido mercado alternativo nos fanzines coloridos, cujo público, apesar de restrito, é fiel consumidor; um nicho de mercado bem segmentado e explorado via correio, com catálogos, assinaturas de revistas em vendas por mala direta, bem mais organizados que o movimento alternativo de quadrinhos no Brasil ou em Portugal, contudo, inseridos em um movimento político de resgate cultural da Catalunya, de resistência consciente à mesmice da dominação, uma luta regional por manter a identidade cultural.

O quadro Catalão parece tão amargo e desolador quanto o Português, o que é lamentável, justamente na cidade que historicamente sempre foi um centro produtor de Quadrinhos autorais, que abrigou autores de quadrinhos refugiados de Buenos Aires - Argentina, fugidos da ditadura de Perón, além de espanhóis atraídos até mesmo de Madrid para este centro cultural; cidade que produz diversas revistas de HQ autoral e abriga a Editora Norma de HQ de Arte com seus álbuns, e cuja Universidade abriga o Cineasta Román Guberne, pesquisador catalão de quadrinhos cuja obra é reconhecida internacionalmente, que aposentou-se neste mesmo ano desta minha visita, 1996.

Na FRANÇA há o Museu de Angoulème, dedicado aos quadrinhos, e a Fanzinothèque de Poitiers, esta uma biblioteca dedicada apenas à especialidade dos fanzines, cuja memória registra, e em cujo acervo há exemplares do fanzine que edito desde 1979, a BARATA, e em Paris destaco os sebos de quadrinhos raros de arte perto da estação de metrô Saint Michel, em estilo art-nouveau, e no Quartier de l ‘Horloge frente ao Georges Pompidou a livraria Fantagories, com álbuns de hq de arte , fanzines, vídeos e derivados, entre centenas de outros pontos muito divulgados pelo turismo franco-belga, estes pontos também volto a freqüentar sempre que estou na França.



WESTCOAST Motion Pictures


Também na América Latina o quadro não difere muito, quando, em abril de 2000, estive no CHILE, visitei a livraria WESTCOAST Motion Pictures loja “Cult” e produtora e importadora-exportadora de filmes de arte e clássicos internacionais com e sem legendas, sebo-antiquário-alfarrabista de Histórias em Quadrinhos e Cultura de Massas, modelismo e séries de TV, (na calle mac-iver 780-merced 832-local 56 perto do mercado de pescados de Santiago), onde há até filatelia com as séries de selos do personagem de HQ chileno “Condorito”, nós, do grupo de pesquisadores, nos cadastramos e fizemos diversas aquisições de material de pesquisa e com fito didático para reverter em prol do corpo discente; entrevistei o proprietário Mario del Vilar Escuti e a gerente Corina Matamala sobre os 600 a mil colecionadores cadastrados na única loja especializada em quadrinhos do Chile, com fito de incorporar dados ao meu projeto de pesquisa; sou informado que o desenho japonês “Pokemon” passa as 17 horas na TV e é campeão de audiência, mas não sabem informar números estatísticos, apenas mostram fitas de vídeo, revistas e bonecos que distribuem em bancas de jornal e lojas de gadjets; personagens da Disney como o brasileiro “Zé Carioca” tem outros nomes, este é “Ali Baba”, e omite-se ter sido criado como brasileiro (o nome Ali Baba remete ao conto das mil e uma noites com 40 ladrões, realçando a desonestidade do ambiente do personagem).

Todas as revistas de super-heróis e de Mangá são impressas no México e distribuídas pela Colômbia, Perú, Chile, Urugay, etc...sendo que a única produção regional é o clássico Condorito, o Brasil escapa do sistema por ser o único a ler Português.

E segundo os dois entrevistados, incrivelmente alegam não haver imprensa alternativa nem fanzines no Chile, naquela semana começou o julgamento do Ditador Pinochet, com exército na rua marchando em passo de ganso nazi-fascista, e a censura e perseguição, desaparecimentos e mortes tornaria muito arriscado fazer zines; deste modo, segundo os entrevistados, aparentemente inexiste produção local de quadrinhos no Chile ou esta é extremamente underground e escondida, talvez circulando de mão em mão ou pelo correio, mas nunca colocada à venda nas lojas especializadas.

Já na ARGENTINA, destaca-se a capital Buenos Aires, onde encontram-se bares cujos drinques chegam a ter nomes de personagens de quadrinhos (Barbarela, Valentina, Druna, etc) e há dúzias de livrarias enormes as quais tem sempre setores de álbuns de quadrinhos, sem contar sebos de revistas e álbuns usados em prateleiras lotadas com centenas de títulos, e em cujo quadro por si só já tão rico é marcante e destacada a rede de lojas CLUB DEL COMIC (Corrientes, 1620; santa Fé 2014 e Lavalle 617) onde encontram-se revistas argentinas e espanholas, álbuns, vídeos, CDRoms, CDplayers de som, bonecos (Action Toys), figurinhas (cards), adesivos e camisetas, etc.que tem site na internet (http://www.clubdelcomic.com.ar), juntamente com sua rival e concorrente no gosto dos aficcionados, CAMELOT, e em ambas os setores de Mangá japonês impressionam pelo volume, quantidade e variedade de títulos.

Autores como Quino, Fontarroza e a feminina Maithena abundam em lindos álbuns batendo recordes de vendas (Só Maithena, publicada na Espanha e Inglaterra, chega a 20 mil exemplares da terceira edição de um só de seus álbuns da série “Mujeres Alteradas”! Um trabalho sensível e inteligente que toca profundamente a leitora feminina e atrai os homens mais “sedutores” e “compreensivos”), há adaptações de literatura como obras e biografias de Jorge Luiz Borges e outros autores, História, Folclore, Nostalgia (Oesterheld, um pioneiro muito respeitado e cultuado,“cult”) e aventuras como a revista que por anos tem sido sucesso absoluto: “El Cazador”, que zomba dos Comics americanos (em um estilo caricatural satírico como LOBO do inglês Bisley), e o mal-comportado, sensual e violento “El Cazador” usa camiseta do time de futebol mais popular e assiste videoclips argentinos da “Music Television” local, obtendo grande empatia com o leitor ao desenvolver suas aventuras em cenários tipicamente marcantes de Buenos Aires.

Percebe-se que o gênero humor predomina na produção argentina, os romances históricos mais adultos são minoria, e o material norte-americano ainda predomina sobre o japonês, mas é fácil encontrar até material da Guerra das Malvinas e outros quadrinhos ufanistas e patrióticos, o ambiente também permite assistir aulas com quadrinhistas argentinos que estão publicando álbuns na Europa, nas editoras de Barcelona-Espanha (muitos fugindo da ditadura de Perón refugiaram-se na Espanha publicando nas editoras Norma e Toutain da Catalunya, outros publicaram Terror nos USA, e isto criou uma cultura de HQ muito valorizada entre os leitores jovens e velhos, todos devoradores de livros e freqüentadores assíduos de livrarias), os argentinos exilados na Europa e USA souberam mesclar com sucesso elementos plásticos familiares em um estilo de desenho com belo domínio do pincel aceitável pelos leitores, com a riqueza da literatura latino-americana, destacando o estilo “Realismo Fantástico” que cativou tanto o consumista leitor norte-americano de terror descartável em baratas revistas de papel jornal quanto o exigente leitor europeu dos álbuns coloridos de capa dura e papel couché ávido por novidades.

A Argentina mostra-se um pólo de produção e reflexão de Hq único na América do Sul, exportando Fontarroza, Quino e Maithena para os vizinhos Uruguai e Paraguai (e é relativamente fácil comprar nos quiosques-bancas de jornais argentinos as revistas do Chileno “Condorito”), mas a recíproca não é verdadeira, é raro encontrar revistas e álbuns argentinos nos outros países “hispanohablantes” andinos, uma surpresa, pois todos lêem castelhano e revistas são impressas no México e distribuídas até o Chile e Argentina (Super-Heróis, Disney, etc) e totalmente impossível no Brasil, onde quase todos são desconhecidos, Maithena é o melhor exemplo deste fenômeno, pois ninguém, nem até mesmo pesquisadoras feministas de HQ especializadas em mulheres, a conhecem no Brasil.

Devido ao idioma português, o Brasil fica literalmente ilhado, isolado de todos os seus vizinhos, quase todos de fala castelhana (excluindo as Guianas).

Já o BRASIL não resume-se apenas ao eixo do maior parque industrial, as cidades do sudeste, entre Rio de Janeiro e São Paulo, e como um país de dimensões continentais e um dos maiores consumidores de quadrinhos do mundo, no Brasil encontram-se diversos pólos e notáveis experiências envolvendo quadrinhos, vou elencar, a título de mera amostragem, apenas alguns breves exemplos dos quais poder-se-ia inferir quantos outros incontáveis casos há.



Gibiteca Universo Paralelo


Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, perto do Pantanal, atração turística internacional, encontrei pouco material de quadrinhos, bancas de jornal efetuando troca de gibis usados e dois Cybercafés com bom material de banca similar ao distribuído no eixo São Paulo-Rio de Janeiro; porém, junto a Edgard Guimarães, dia 5 de setembro de 2001 visitamos dois locais que podem ser destacados: O primeiro é uma loja de venda de quadrinhos, Gibiteria Universo Paralelo (Rua Joaquim Murtinho, 361, http://www.comicshop.com.br) onde entrevistei o vendedor José Guilherme e as gerentes Paula e Suzana, sabendo que são um ponto da distribuidora paulistana Devir, tendo assinantes de material norte-americano importado, mas o forte das vendas é o Mangá japonês devido ao desenho animado na televisão que desencadeia os modismos de personagens; também José Guilherme explica que SandMan (Neil Gaiman) é lido pela minoria feminina de consumidores; há compradores filhos de pecuaristas com contas de assinaturas mensais de 400 reais; já a área da loja é impressionante pela amplitude, e há ainda um terreno asfaltado nos fundos para maratonas e festivais de RPG (Role Play Games), venda de cards e até material da Meribérica de Portugal, álbuns sofisticados, e poucos bonecos (Action Toys) que explicaram ter pouca saída no mercado (talvez preconceito do predominante público masculino por tratar-se de bonecas, brinquedo feminino) porém nenhum material produzido por quadrinhistas locais, nem revistas nem fanzines; a Universo Paralelo é a loja com maior área que visitei, no Brasil e exterior, talvez até possa ser contada como uma das maiores do mundo, se não a maior, certamente está entre as maiores em área.



Gibiteca Universo Paralelo


O segundo ponto, indicado por Paula, é a Gibiteca, na rua Francisco Barbato, 180, Campo Grande, MS, CEP 79118-251, bairro São Francisco, na rua do sobrado amarelo da avenida Tamandaré, seis kilometros antes da UCDB; entrevistei a equipe, de estudantes estagiários de Pedagogia e Psicologia da UCDB, (Sonia Aparecida Francisca S.- alfabetizadora, Elton Gilbranda-psicologia e Sonia Aparecida Oliveira Souza R.-alfabetização infantil), a Gibiteca foi resultado de um projeto de Ronilço Oliveira Cruz, que trabalhava em hotel de Campo Grande e lutou por 4 anos para implantar o amplo projeto social de emprego de Quadrinhos na educação, transformando o prédio que era uma creche na Gibiteca com apoio dos consulados da Austrália, França e outras, além da Prefeitura e do Governo do Estado, além da Igreja Católica e da Universidade Católica Don Bosco, a Gibiteca insere-se em uma ONG e o projeto implica em implantar uma unidade por bairro de Campo Grande, sendo esta a unidade protótipo de teste, no meu entender uma unidade de ensino modelo muitíssimo bem-sucedida a ser imitada e que já existe e acumula experiência por 6 anos.

A Gibiteca abre das 7:30 às 11 horas, e à tarde das 13:30 às 17 horas, a sala 1 é o atendimento psicológico, sala 2 é para alfabetização, sala 3 - leitura de Gibis (o acervo de 15 mil revistas é todo proveniente de doações, o que é impressionante pelo volume e ausência de custos graças ao apoio popular, Mônica e a linha Maurício de Souza são mais lidas, seguidas pelas revistas Disney, entre crianças, já entre adolescentes há só uma parede com prateleiras de super-heróis devido à pouca procura dos adolescentes, a gibiteca atende maior parte de usuários infantis), sala 4 -oficinas de vídeo e videoteca (há oficinas de arte sucata e aulas gratuitas de reforço escolar, além de apoio pré-escolar), sala 5 -Biblioteca para pesquisas de segundo grau, sala 6 alfabetização pelo método de imagens Bleecker-Scotti, com figuras e palavras, sala 7 - Cozinha que oferece duas merendas por dia aos usuários, fornecidas pela entidade Promosul, Prefeitura, Secretaria de Estado, os mantimentos são entregues em lotes mensais, e a sala 8 é um armário de depósito de materiais didáticos, e a sala 9 em reforma terá os computadores ligados à Internet; também há os pátios com grama em uma área enorme.

Os estagiários entrevistados explicam que 15% da população local freqüenta e é beneficiada, sendo o perfil do usuário infantil de 7 a 12 anos, com 15 a 20 crianças fixas toda tarde pois estudam pela manhã, mais 40 flutuantes, alguns adolescentes abandonam escola mas continuam freqüentando a gibiteca; os leitores de super-heróis costumam ter os pais separados ou problemas familiares de agressão verbal, adolescentes apáticos que testemunham espancamento da mãe, carentes, costumam seguir o atendente psicológico por todo o prédio.

A gibiteca, ligada à Universidade Católica, também efetua ações de pastoral e catequese e eventos e festividades religiosas católicas relacionadas ao calendário gregoriano, seu e-mail é gibiteca@ucdb.br e o website é http://www.ucdb.br/gibiteca.

Uma terceira visita relacionada aos quadrinhos foi também acompanhando Edgard Guimarães e Gazy Andraus, ao acervo particular do colecionador de quadrinhos Kenzo Fujimoto (caixa postal 339, Campo grande, Mato grosso do Sul, 79002-970, tel 67 383.5038, localizado no bairro Amambaí).

Kenzo mostrou-nos sua coleção de discos de vinil de filmes de Faroeste, Séries de Televisão como “Bonanza”, “Maverique”, “Batmasterson”, “Cisco Kid” e outros, também de Cds, além de um outro andar só de vídeos, sem contar o acervo de revistas de Histórias em Quadrinhos de Faroeste como “Flecha Ligeira”, “Zorro”, etc... somando-se álbuns de figurinhas-cards e outros objetos colecionáveis em um volume e técnicas de arquivamento e recuperação de informação excelentes e invejáveis.

Kenzo foi extremamente gentil e prestativo, orgulhoso de seu gigantesco acervo, ele é um verdadeiro expert sabendo tudo de quadrinhos, inclusive tinha em sua biblioteca de pesquisa o livro que organizei e editei quando coordenava o Grupo de Trabalho Científico de Quadrinhos: “Histórias em Quadrinhos no Brasil:Teoria e Prática” vol. 7 da coleção GT do Intercom (http://www.gibindex.com/gthq).

Kenzo publica anúncios em jornais para compra de coleções e contou diversos casos pitorescos relacionados a outros colecionadores de nostalgia pela Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, etc...

Estas visitas confirmam as hipóteses de Agnelo Fedel, diretor da Uninove e meu orientando de mestrado, sobre o comportamento colecionista temático que armazena material em diversos suportes com matrizes relacionais de conteúdo.

Outra GIBITECA, talvez a primeira do BRASIL e uma das primeiras do mundo é a GIBITECA DE CURITIBA no Paraná, resultado de uma iniciativa iniciada em 1973, segundo depoimento do arquiteto Key Imaguire Júnior, no livro que coordenei “As Histórias em Quadrinhos no Brasil, Teoria e Prática” (ISBN 85-900400-1-1) página 28 e seguintes, onde afirma ser esta a primeira gibiteca do mundo.

A gibiteca de Curitiba ganhou fama nacional de 1982 a 1996, período no qual autores de todo Brasil lá marcaram presença lançando revistas e dando oficinas e palestras, exposições, etc, e neste 15 anos realizou 115 exposições, 23 cursos e oficinas, 14 lançamentos de revistas e livros, 9 mega-eventos e diversos festivais de fanzines, quadrinhos, RPG etc. com acervo de 40 mil gibís, hemeroteca atualizada, média mensal de 3 mil leitores e média anual de 10 exposições .

Depois dela surgem a Gibiteca de Belo Horizonte-Minas Gerais, a Gibiteca Henfil na Paraíba, Gibiteca Henfil de São Paulo, Gibiteca Marcel Rodrigues Paes de Santos, etc.



Gibiteca Marcel Rodrigues Paes


Tenho muito carinho pela Gibiteca de Santos, pois foi uma carta minha publicada no jornal A Tribuna de Santos que sugeriu o nome de Marcel Rodrigues Paes como homenageado da Gibiteca, jornalista amigo pessoal meu falecido e pioneiro, criador da primeira coluna fixa sobre quadrinhos no centenário jornal A Tribuna de Santos.



Gibiteca Marcel Rodrigues Paes


Na Gibiteca Marcel Rodrigues Paes em Santos, da Prefeitura Municipal, no Posto de Salva-Vidas da Praia, lancei diversas vezes a revista BARATA e álbuns meus, além de fazer diversas exposições e realizar palestras e oficinas.



Gibiteca Marcel Rodrigues Paes
Pais do Marcel e Calazans


Ainda no litoral de São Paulo, na cidade de Peruíbe, em outubro de 2000 visitei a FÊNIX uma gibiteca que aluga-empresta centenas de títulos aos associados, como um tipo de biblioteca-videoteca com material circulante, Ciro Luiz, o proprietário, também vende revistas novas e usadas, mostrando que há um volume considerável de leitores para estas iniciativas envolvendo quadrinhos mesmo em cidades pequenas, a loja fica perto da praça da igreja, Rua Tucuruví, 23, Peruíbe, CEP 11750-000, tel (0XX13)-455-4362.



Gibiteca FÊNIX


E em São Vicente há a Gibiteca Bigail, da Prefeitura Municipal, cujo nome é em homenagem à personagem de Seri, Cacilda-Bigail, que sai nas tiras diárias do jornal A Tribuna..

E na grande São Paulo há incontáveis bancas de revistas usadas, sebos, livrarias e gibitecas que oferecem leituras em quadrinhos, como o Sebo Messias, Gibiteca Henfil, diversas gibitecas regionais de bairros, Sebos gigantescos, alguns parecendo cenários de sonhos surrealistas com paredes forradas de quadrinhos que até pendem do teto como estalactites de uma caverna de quadrinhos como o sebo rico em nostalgia AO GAÚCHO na Rua Aurora, 429, Centro tel 0XX11-3337-6545.



Sebo Ao Gaúcho


Por quase vinte anos eu tenho freqüentado a gibiteria, sebo e importadora MUITO PRAZER do Valter da Silva Fernandes, fundada em 17 de setembro de 1978, esta entrevista realizei em outubro de 2001, quando a Muito Prazer comemorou 23 anos de funcionamento.

Com um amplo espaço bem pertinho do lugar do refrão da música “Onde cruza a Ipiranga com a Avenida São João” ao lado do metrô da Praça da República, Avenida São João, 735, São Paulo, tel (**55) (021)-11-222-1185, CEP 01035-000.



Gibiteca Muito Prazer
Valter e Calazans


Valter da MUITO PRAZER trabalha com novidades, raridades européias, nostalgia, infantil, terror, erótico, faroeste, detetives, guerra, fanzines alternativos e todos os gêneros de quadrinhos, de Luluzinha à Vampirella, de Mandrake e Fantasma a Druna e Batman, das revistas da EBAL distribuídas em posto de gasolina da Esso até formatinho colorido da Bloch, grossos livretos da SABER ou gibis da Rio Gráfica e Editora RGE, e centenas de COMICS norte americanos de todas as épocas; com talvez o maior e mais variado acervo do Brasil, referência obrigatória de todas as reportagens sobre HQ de jornalistas e televisão, ponto de encontro de autores, desenhistas, pesquisadores universitários, professores, alunos fazendo trabalhos, fanzineiros, faneditores, colecionadores e todo tipo de leitor.



Gibiteca Muito Prazer


Ao procurar completar uma coleção, repor um número de revista danificado, ou presentear um amigo, é a MUITO PRAZER o primeiro lugar onde todos vão ou telefonam, pois atende pelo correio a todo o Brasil e Exterior.

Nesta livraria MUITO PRAZER já adquiri desde álbuns de Eric Losfeld (Barbarela) até Vaungh Bodé, de Corben a Druillet, de Pichard a Crepax, de Mangá a livros teóricos, de edições de luxo com holografia na capa a revistas underground mimeografadas a álcool; ou seja, para mim é a melhor livraria do mundo, mas sou suspeito nesta opinião subjetiva, afetiva, pois gosto muito da conversa fluente do Valter, de sua erudição de livreiro que lê um livro por dia faz mais de trinta anos, de sua inteligência e sensibilidade em indicar-me material que sabe vou gostar, assim como faz com centenas de outros clientes assíduos, fregueses fixos de fidelidade à toda prova que a confiança que somente Valter inspira, a certeza do bom gosto dele pode trazer.

Faltou falar de centenas de bancas e livrarias e gibitecas, mas se eu fosse continuar, não acabaria nunca, e este texto já ficou grande demais, ninguém vai ler mesmo...então, vou parando po aqui, estas são as únicas que eu lembrei enquanto ia escrevendo, minha memória anda péssima, peço desculpas a todos que esqueci ou omiti, foi em querer, e muitos que lerem vão pensar em vocês -que esqueci- como injustiçados, o que vai trazer simpatias e novos clientes!



Gibiteca Muito Prazer


Esta é só uma amostragem aleatória e superficial, um apanhado panorama...

Assim, só resta convidar você a visitar todas estas livrarias (e tantas outras bancas de jornais e gibitecas) e comparar por si próprio, tirando assim a sua própria opinião sobre o panorama do mercado de quadrinhos que eu aqui desenho pela primeira vez, esta crônica ou depoimento de tudo o que tenho visto e sentido neste hobbie ou passatempo, este meu prazer pessoal e subjetivo de gostar de imagens, fotos, desenhos, vídeos, cinema e artes... sem dispensar uma boa prosa, uma gostosa conversa com as pessoas que também partilham do meu prazer por imagens, fazendo amigos e trocando experiências.

E você, envie as vivências suas para mim e vamos crescer juntos e fazer novas amizades.

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Ilustração feita por Renê Dalton
Ilustração feita por Renê Dalton
Ilustração feita por Renê Dalton
Ilustração feita por Renê Dalton