ENTREVISTAS




Entrevistas nas quais percebe-se mais de Calazans do que ele vaza em seus textos, aqui há espontaneidade e sinceridade.

Marcos Freitas - Mato Grosso do Sul.

-Em termos de roteiro e desenho, quem são seus preferidos?

Calazans - Esta pergunta me obriga a ser injusto, omitindo muita gente; mas dos que lembro agora tem o Goscinny (Asterix), Bodé, Gore (Corben), Caza, Druillet ( no Vuzz), Moebius ( no começo da Metal Hurlant), Bisley, Alan Moore, Nico Rosso, Bourgeon, Jim Starlin, o Surfista Prateado (do Buscema), Pichard, Crumb, e um monte que me atrai prá pesquisa mas que não gosto.

-Como é viver em Santos?

Calazans - Santos fica numa ilha, é o maior porto da América latina, e fica a 40 minutos de São Paulo.

Minha rotina é acordar às 5, subo a serra do mar ( que os jesuítas chamavam "Grande Muralha") e leciono até meio-dia, volto pro litoral prá trabalhar até meia noite. Gosto de nadar, mergulho muito no mar, fico dois minutos lá em baixo, e é outro mundo, outro ritmo, e sem peso, flutuamos... Leio muito, escrevo e desenho.

Curto comida chineza, japonesa, árabe, italiana.. Vejo muito vídeo e vou ao cinema de arte, teatro, vernissagens, exposições de arte.

Tenho uma namorada com os mesmos gostos e amigos próximos com quem partilho estes prazeres, todos envolvidos com artes, misticismo e ciências.

Frequento outros círculos místicos além dos (*). Viajo muito, aprendo muito viajando e comparando costumes, arquiteturas, sentindo as cidades que cada cultura, cada povo criou.

Na Universidade não trabalho isoladamente, Levo Comunicação e Mídias tecnológicas prá faculdade de Artes e levo Arte pros jornalistas e publicitários; pesquiso muito as novas tecnologias, hipermídias, realidade virtual, telemática...misturando um Media Lab do MIT com um Futuroscope de Poitiers sem preconceitos.

Talvez tenha a ver com nossa era este "fazer pontes", misturar as ciências e conhecimentos mais caóticos, ser Nexualista que faz nexos e dá sentidos é ser meio alquimista, sufí, taoista ou xaman.

Escrevo longas cartas, contos, poesias, desenho quadrinhos, pinto aquarelas, faço esculturas modeladas em argila, componho melodias ou crio o que pintar sem rotular. ....e aproveito a vida, passeio com minha namorada ao pôr do sol, descalços na beira do mar.

Acho que o mistério da existência é estar de bem com a vida, amar, fazer arte é um efeito colateral das paixões da gente. Em cada obra a gente se expõe, se desnuda, se posiciona, e é isto que toca e emociona os outros, o encontro com o humano do autor!!!


Eros Sanches - Santa Catarina.

-Como surgiu o álbum "Guerra das Idéias"?

Calazans - Muitos zines por todo Brasil me pediam histórias em quadrinhos, e eu tinha este projeto de contar a História da humanidade do meu jeito... daí fui fazendo meio sem sentir aquelas Hqs de duas páginas.

Em três anos eu já estava com quase trinta episódios! A pesquisa deu trabalho! Cenários, figurinos, tipos genéticos, costumes, filosofias...

-Quais são seus gostos musicais?

Calazans - De tudo um pouco... Titãs, Raul Seixas, Arrigo Barnabé, melodias medievais a flauta doce, canções de Baleias, sei lá!


Joacy James - Maranhão.

-A "Guerra dos Golfinhos" mostra sua evolução como autor, como é produzir um trabalho como este?

Calazans - Cansativo, nas primeiras 56 páginas pude ir gradativamente aprofundando a psicologia dos personagens, apagando o narrador-personagem principal (Beto) e tornando aos poucos a diagramação e o ritmo mais Mangá, o traço mais solto e estilizado.

A vantagem de planejar um roteiro longo como parte de uma Saga de 150 páginas é que você vai dando mais conteúdo, profundidade, aos pouquinhos, em doses pequenas, sem cansar ou chocar o leitor.

-Por que um cenário aquático?

Calazans - Porque posso criar uma nova arquitetura realística ( baseada em Rougerie) , criar uma história do futuro, uma Confederação política onde dou às cidades nomes de pessoas que admiro: Gandhiville, Tiradentes, Zumbipólis e outros que lutaram pela liberdade.

Crio hábitos alimentares nipônicos , roupas e naves, referências ciêntíficas e literárias, política e comercio . Quando bolei, em 1985, não havia ficção científica submarina assim...e as referências geográficas tem tanto a ver que a fossa submarina de Puerto Rico chegará a ser o personagem principal antes de uma golfinha...neste primeiro álbum o foco narrativo começa no Beto, passa prá Dry e no final prá Conchita. Pena que a revista Porrada Special está picotando os episódios sem respeitar o suspense e há sete meses não me pagam.

-Ao lado de Emir Ribeiro, você é um dos únicos que publicou numa editora como a Abril, na revista "Aventura e Ficção" n.19 , Conte-nos sobre esta experiência.

Calazans - Tá, a Porrada circulava com 60 mil, a Abril com 120 mil, mas o esquema é frio, mata o tesão de criar, vira comércio com prazos e mil normas prá cercear a liberdade, a obra sofre cortes, é mal paga, não se respeitam direitos de autor nem autorais...prefiro as edições independentes dos fanzines onde se pode partir para vanguarda.

Os leitores conhecem versões suavizadas da minha obra nestas revistas, muito cara dos zines me acusou de me vender ao Sistema, mas valeu pela experiência.


José Valcir - Pernambuco.

-Calazans, as suas mulheres são sempre voluptuosas, apetitosas, todas as mulheres calazanistas tendem por este lado: apenas objeto sexual.Foi no Absurdo, na Guerra dos Golfinhos, nas Fadas, Tyli-Tyli, e por aí vai. As mulheres são apenas isto, canal de escape para os homens?

Calazans - Valcir, como muitos leitores você está atendo-se apenas ao aspecto visual, a aparência das personagens femininas. Como gosto do corpo feminino sou um observador das mulheres, seus gestos, olhares, as sutilezas da sedução, e esta sensualidade viva surge quando as desenho.

Muitos confundem esta sedução com obscenidade ou sexualidade. Quero retratar a alma feminina por meio do corpo, que é como ela expressa-se, um jeitinho de sentar, sorrir convidando, um olhar provocante, insinuante, até petulante...detalhes sutis, nada grosseiro ou explícito.

Meu estilo de traço é expressionista, mas não caricatural, simplifico acentuando pelo não-desenho que realça o detalhe que quero, em função da mensagem que quero passar, da personalidade que expresso. Todas minhas personagens femininas são inspiradas em musas, namoradas, amigas, casos intensos, colegas, todas de verdade.

Longe de serem objetos sexuais, repare que sempre elas manipulam e seduzem os homens. Não há "heróis"nas minhas obras, há apenas homens comuns, ou confusos ou apáticos, aprisionados em seus projetos e trabalhos; e as mulheres surgem como mola propulsora das ações, o drama-movimento, o incentivo para novas perspectivas onde agem juntos, em casal. Liberdade não é libertinagem agressiva, minhas personagens são intuitivas, espontâneas, felizes...e ser feliz implica em liberdade sexual sem repressão ou culpas.

A tantra yôga emprega esta energia da libido para alterar a consciência, o orgone de Reich, o princípio do prazer, vida, Eros contra Tanatos...Kundaline..o yin e yang cósmicos são o fundo místico ou filosófico da minha obra.

Tyli-Tyli é punka, tem idéias políticas anarquistas, muda de namorado sem traumas, luta pelo que acredita propagando seu ideal na banda hardcore onde toca, musica os poemas do poeta dos paradoxos.

Juntos se complementam, são fortes, não concebo um sem o outro e muito menos um mandando no outro, eles dançam pela vida com alegria e humor, rebeldia criativa adolescente. Tyli-tyli é uma mistura de três minas que conheci, que amei, aquela energia-matriz que existe em tantas adolescentes, quando Shakti habita seus corpos e elas nos inspiram a escrever poemas, cartas de amor, quando nos surpreendemos cantarolando sozinhos de felicidade.

Amar a vida sem limites, arrebatadoramente. Dry, da "Guerra dos golfinhos" é quem seduz Beto para viver no mar; apaixonada, ela o acompanha e partilha suas experiências místicas, mas tem seu emprego de engenheira robótica , é uma mulher madura, vivida. Vê os robôs como substitutos do filho que abortou,aborto que a deixou estétil.

Conchita é novinha, seduz Beto pelo prazer de seduzir, vivendo um momento, um impulso juvenil; mas não é inconsequente, assume os problemas a seguir. Ela é super-sensível, humana, artista-dançarina-performancer.

Enquanto Dry tem um forte instinto maternal frustrado que projeta no amado, Conchita está aprendendo e testando seu poder de sedução. São duas psicologias femininas bem diferentes, talvez Conchita tenha alguma culpa por fazer de Beto objeto sexual.

Já a Loira do Absurdo está nua com símbolo da liberdade, despreocupada até de roupas, como uma indiazinha. Em todo o álbum ela seduz para libertar, é uma sacerdotiza tantra surreal, não é objeto sexual, seu objetivo é transcendental, o fim da era das trevas, da Kali-yuga.

E as fadas são como bichinhos da floresta, elementais ecológicas, passionais, silvestres, nuas como indiazinhas e sem pêlos púbicos como crianças.Tem uma visão não-humana e feroz do ridículo e patético humano com suas cidades, guerras e fuga da natureza. São arquétipos ou metáforas das forças naturais, não são inspiradas em mulheres reais.

São minha urbanofobia . Dry e Conchita na ficção científica, Tyli-Tyli na crítica politizada , Loira surreal ou as fadas desvairadas...e tantas outras... Todas representam meus sentimentos e visões de mundo.


César Silva - São Paulo.

-Quando você não explora motivos políticos, filosóficos e místicos, você envereda pela ficção científica , com trabalhos de reconhecida qualidade.Quais são suas influências? Seus autores prediletos?

Calazans - FC tem uma pesquisa que antecede, mas há reflexões preliminares em toda obra, e sempre há mensagens políticas, explícitas ou subliminares.

Tenho tantos autores preferidos, e sempre estão surgindo novos! H.G.Wells, Poe, Clive Barker, Lima Barreto, Alfred Jarry, Artaud, Willian Blake, Fernando Pessoa, Kafka, Isaac Asimov, George Orwell, Moacir Scliar... leio de tudo: ficção científica, horror, poesia, há fronteiras entre os gêneros? Gosto de contos curtos e filosóficos, como Scliar, ou "o homem das multidões"de Poe, "O banqueiro anarquista"de Pessoa, "Nova Califórnia"e "O homem que falava javanês" de Lima Barreto, H.P.Lovecraft, ou meu romance preferido, "Frankenstein" de Mary Shelley; que mistura gêneros e desafia classificações ( como os poetas Augusto dos Anjos e Rimbaud) , nele há fc, terror, misticismo (o doutor é alquimista e cita Paracelso) e política.

Mary Shelley praticava amor livre com Byron e Shelley, a mãe dela era feminista e o pai anarquista, Frankenstein tem um subtexto subliminar libertário fascinante.




Ilustração feita por Renê Dalton
Ilustração feita por Renê Dalton
Ilustração feita por Renê Dalton
Ilustração feita por Renê Dalton